sábado, 19 de julho de 2014
Espasmo hipnico
Hoje senti uma dor,
latejava por dentro...
E a lembraça de uma recordação aflorou os sentidos,
entorpecendo as acções.
Era como quem revê,
como quem quase esquece,
como se ao adormecer um abismo de fronte se deparasse
e um súbito estremecer nos separasse da queda.
Ardia,
queimava
e fulminava...
segunda-feira, 31 de março de 2014
O Nada!
a calma que reconforta
o interior e a alma temida e julgada morta.
O nascer de um sentimento.
O crescer de sensações que transbordam persistentes,
curiosamente eloquentes.
É por dentro!
Sem dúvida que é por dentro que o ser se rói e se curva
obediente, impotente, mas tão duramente presente.
Apesar de tido como submisso,
apesar de não reclamar um lugar,
ali está! Firme, hirto,
qual cadáver enregelado!
São ondas quentes,
são chamas geladas,
ideias transparentes
em ventres cerebrais criadas.
Em cada dedo,
o carvão suave que se submete à escrita
e se arrasta, se desgasta numa cinzenta pasta
de linhas, folhas e gotas de pensamento.
A beleza é efémera!
O agrado não subsiste,
após a satisfação triste
do desejo já ausente.
Ah!… Quimera!
Acabou a consciência racional.
Cessou a dura luta na jornada vital.
Romperam os rios humanos de lava sanguínea
canalizando-se para uma só prioridade: Fluir!…
O fim e o início encontram-se.
Beijam-se fugazmente, sofregamente, de repente.
E depois que a história sucumbiu,
e antes que o tempo surja,
o ponto de perfeição ansiado:
- O escuro…
- O silêncio…
- O Nada!
VI
terça-feira, 11 de março de 2014
A poesia
A poesia surge quando se faz silêncio
e uma luz ténue ilumina os contornos do que é importante,
no meio da penumbra...
À luz da vela
Deixa-me olhar-te enquanto dormes.
Por um instante ainda aqui estou
E a vela arde a sua derradeira luz,
Envolvendo-nos numa luz crepuscular.
O mar ecoa, distante,
Fazendo-se ouvir na quietude da noite
E a tua brisa, um sopro,
Ondula uma madeixa do meu cabelo.
Do teu olhar não há rasto,
Sob a beleza das tuas pestanas,
Vais na maré, já alta,
E eu estou em terra,
sinto grãos de areia
Que me toldam a visão.
A viagem está marcada,
A partida não tarda em chegar,
Então a luz apaga-se...
Não vês, não vejo,
Mas sei-nos aqui ancorados,
Enquanto os nossos sonhos andam à deriva,
Por uma noite ou uma eternidade.
Boa noite, meu amor,
Até amanhã...
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Pausa
perplexidade, reacção,
Incremento, modelagem,
revolta, criação!
Os dedos cospem
o íntimo rejeita,
moem, distorcem,
e da purga, a obra é feita.
A voz que não era ouvida,
fala sem dizer
e do discurso desordenado
a ordem brota sem o perceber.
Tinta, gralha,
breu e fél,
das entranhas esconjuradas
arde a doçura do mel.
E no silêncio que anunciava o fim,
já não se finda o que era calado,
pausa, delonga, ou nada,
o recomeço! (atrasado?)
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Alma
Eu digo que é cinzenta
Que é bassa,
Que é áspera,
Que fere,
Que se mantém firme, a medo,
Que é fel!
Podia, ao menos, esquivar-se
Deixar-se imobilizar,
Consumir-se,
Extinguir-se,
Sumir-se e deixar-se ficar,
Sabe-se lá onde
Em que paragens,
Em que paisagens,
Em que tédio envolvente,
Dominante,
Constante...
Se se mantivesse ao menos
distante,
Perdida,
Fugida...
Se não voltasse,
Não regressasse nunca mais,
Deixando somente um rasto
Que com o tempo de esbaterá...
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O que é preciso fazer?

Por favor... cativa-me!
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu delicadamente o principezinho, que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui, disse a voz, sob a macieira.
- Quem és tu? perguntou o principezinho. És bem linda...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, disse o principezinho. Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Mas, depois de ter reflectido, acrescentou:
- O que quer dizer 'cativar'? [...]
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa 'criar laços...'.
- Criar laços?
- Isso mesmo, disse a raposa. Para mim não passas ainda de um rapazinho muito parecido com cem mil rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti sou apenas uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, teremos necessidade um do outro. Para mim serás único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...[...] A minha vida é monótona. [...] Mas se me cativares a minha vida ficará como que iluminada pelo sol. Conhecerei um ruído de passos que será diferente de todos os outros. Os outros passos fazem-me meter debaixo da terra. Os teus, chamar-me-ão para fora da toca como uma música.
A raposa calou-se e olhou muito tempo o principezinho.
- Por favor... cativa-me! disse ela."
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Folhas brancas
folhas virgens,
que risco com o meu pensar,
como é a dor que sentis
com este meu dilacerar?
O pensamento é sublime,
a escrita é banal
e eu na minha humana arrogância
subjugo o etéreo ao material.
E eu faço e acontecem,
submetidos à minha força carnal,
ragos de vontades,
mentiras, verdades,
verbos, adjectivos,
desejos, imperativos
que te percorrem
e transcorrem sem parar.
Depois do acto consumado
pouco, ou nada, resta por tocar
e quem te olha, já não te vê.
Só resta a mácula,
o branco sujo pela mão
e o poema ainda quente
que te esventrou sem perdão.
A noite diz...
que murmúrios calou em si,
mas é em surdina feita a sua resposta,
com o maior silêncio que conheci.
E quanto mais pergunto, mais se cerra,
ferida, por eu o cortar,
cada tentativa é uma investida,
calo-me, arrependida por falar.
Estranha é a nocturna linguagem.
Na escuridão, com imponência,
sem quês, nem porquês,
tudo se vislumbra como numa miragem
e o nada aproxima-se de vez.
Agora temo a noite,
ensurdeceu-me porque o quis
e eu grito, mas já não me oiço:
"A noite diz..."
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Ainda é Verão
que algo se parte a cada adeus.
Nos teus olhos
antecipo a distância dos meus.
Nesse espelho
vejo que não goteja
porque ainda é Verão
e não antecipo o Inverno
que gelará o lago primaveril.
Não partas no Inverno,
meu amor!
Sem o calor dos teus braços
os nossos corações tornar-se-ão estátuas
e as estátuas não são como nós,
são frágeis,
frias,
imóveis
e partem-se a cada partida.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
Partida
E já ardia a ausência.
Matizes em tom de saudade
Contorcendo-se,
Adensando-se numa espiral confusa,
Num movimento concêntrico.
E a distância como que aumentava
A cada círculo completo
No espartilho do tempo.
E a angústia da espera
Já não advinha da dor,
Mas sim da urgência do reencontro.
Então,
Nesse momento,
Dir-te-ei sem palavras
(como sempre o faço)
Que não é um pêndulo
Que rege o meu dia,
São outras batidas
E silêncios feitos poesia.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
O que não te disse...
ainda tão estranhos aos meus,
e no fugaz momento em que se encontraram,
no escasso instante que um arrepio me percorreu,
tive vontade de...
tocar-te.
Sem luxúria,
sem sentimento de posse,
somente tocar-te
para ter a certeza que eras real,
afagar-te a face.
Mas não o fiz
e continuo na dúvida...
segunda-feira, 30 de maio de 2011
V
Independentemente da ansiedade que esta relação implica (superior à relação presente-passado) ambas relações possuem em comum o seu determinismo e a aceitação, mais ou menos pacífica, por via da univocidade.
sábado, 28 de maio de 2011
Ruído
Vibrava,
ressoava
como um arrepio.
Sem aviso,
sem permissão
e sem pudor,
entrava...
Aos poucos instalara-se
e derivava,
oscilando em rectas perturbadas.
Privado de direcção,
estendeu-se.
Rodopiou numa espiral,
contorcendo-se,
e eclipsou-se.
Subitamente,
a ausência de som,
a calma,
e não contagiavam:
dilaceravam!
Tentei gritar,
calei.
Tentei falar,
falhei.
Só silêncio,
o perturbador silêncio...
E o ruído?
O ensurdecedor ruído?
Findou...
Engoli-o!
segunda-feira, 23 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
sob a voz silenciada.
Na distância dormente
a dúvida brota dissonante,
por entre murmúrios imperceptíveis
e sombras que se adensam,
demasiado tangíveis.
Em que monólogos
ganha forma a incerteza?
E o abandonado corpo sinuoso,
imbuído pela cadência do sono,
sugere longíquas paisagens,
tecidas com fios dourados.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
IV
A luz entrava pelas portadas entreabertas, como que buscando um alvo, uma pálpebra, talvez, distraída pela candura do sono. No entanto, foi um olhar que atingiu, desperto, disperso, e que subitamente incitado a focou de volta. Pequenas partículas dançavam na diagonal que trespassava o quarto e reluziam, fugazmente, para acabarem por emergir, de novo, na envolvência negra. Era aquilo a felicidade, uma brecha momentânea na escuridão, captada num relance.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo, distraindo-a do estado de contemplação em que a luz a mergulhara. Somente o fervilhar, sob a forma de calor, e um suspiro súbito denunciavam outra presença sobre os lençóis. Não era uma ilusão, trazida pelos subterfúgios enganadores do sono, nem um anseio expectável, por algo que ainda não tinha sido. Aquele era o presente, o agora que anulava o nunca.
Numa tentativa de gravar corporeamente o momento percorreu primeiro os lábios, depois o recorte curvilíneo do pescoço e deteve-se no peito, onde se tornava evidente que o ritmo da vida era diverso do da noite anterior. O enlevo impetuoso tinha dado lugar a um ostinato grave e regular, menos sincronizado com o seu. A volúpia refreara e a respiração tornava-se quase imperceptível.
Do meio do silêncio um abraço envolveu-a e selou o que viria a ser a recordação daquele instante.

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