quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Guarda-joias


Minha mãe deu-me uma caixinha,
modesta, mas eficaz
no seu propósito de guardar
jóias e perguntas,
segredos de encantar.

A caixa não tinha fundo, 
mas bastante albergava,
E, apesar de finita,
era um mistério,
o tanto que guardava.

Outrora caixa de tesouros,
agora caixa para esconder,
pedras pesadas, 
saudades (mais do que mágoas),
para que ninguém as possa ver.

E por mais que a queiram abrir,
com mil chaves está cerrada,
nem espreitando se vislumbra
o quanto abarca, e abraça,
entre lágrimas, na penumbra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Que horas são?

 -Que horas são?
E o tempo deixa de ser a régua calibrada pela sucessão de algarismos.
Em boa verdade, aqui é sempre dia, enquanto o olhar estiver perto e desperto, consoante a perpendicularidade dos seus entrecruzares.

- Tem horas que me diga?
Horas, minutos, segundos… se os tenho, não sei.
Talvez os tenha na medida em que todos temos, enquanto persiste a ilusão de que se possui o tempo.

O dia e a noite estão lá fora, longe do alcance da vista...

E no meio da conversa (ou monólogo) voltei a perder o último comboio.
Amanhã haverá outro (se é que as automáticas locomotivas e seus pontuais maquinistas não fazem novamente greve…).

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Bela flor


Que flor será esta,
plantada,
(não semeada)
em frio e alvo vale?

As flores não gostam de vaso,
nem de cama,
nem de gelo,
nem de altar.

As flores são simples 
gostam de campo,
de sol,
de terra,
de orvalho para as regar,
E de fragrâncias, 
de outras flores e de mar,
trazidas pelo vento,
(ou qui-ça por brisas de outro lugar).

Cortam-se as flores,
as mais perfumadas e singulares,
decepa-se o que as une à sua raiz.
E sem pudor, 
remorso ou aviso,
são relegadas para um outro país.

Em jarras ou solitários,
tocadas pela beira d’água
com uma falta que não se pode entender.
A sede é tanta,
que o doce que as mantém 
é fel, 
é desdém,
só a custo o conseguem beber.

E as pétalas abrem,
afastam-se e murcham,
caiem por todo o branco em seu redor.
E já sem perfume,
sem vigor ou queixume,
permanecem e sonham com um outro lugar.

Que olhos estes…
Que egoísmo traiçoeiro,
que silêncio,
que agarrar!

Que flor será esta?
Não sei…
mas é uma Bela flor,
porquanto o seu pé durar.

sábado, 28 de março de 2020

Malmequer

Não me olhes,
que eu morro...

Na cadência do tempo que nos marca
os dias sucedem-se,
ainda sem açucenas,
e sigo...

Sigo-te
e não vejo,
nem tão pouco a minha sombra
de mera coroa decepada.

Já faz frio
e eu sinto-me sem mim,
assim,
sem pétalas levadas ao vento.

Leva-me.
Não,
deixa-me!

Deixa que beije este solo
que ainda me quer.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A mulherzinha

A mulherzinha
é versada na arte de agradar,
aprendeu com a mãe,
entre as muitas tarefas do lar.

A mulherzinha
sabe que não é senhora de si,
mas nãosabe quem é,
para além do ser mulher de alguém.

A mulherzinha
espera e não desespera.
Abre a porta  quando tocam à campainha,
pendura o sobretudo no bengaleiro
e serve uvas sem grainha,
enquanto massaja pés descalços
(menos cansados dos que os seus).

A mulherzinha
é malabarista,
palhaço,
mágico
e bicho amestrado.

A mulherzinha
é eternamente cumpridora,
apesar de não ser eterna
e de se sentir mais deformada
do que conformada.

A mulherzinha
é coisa de trazer por casa,
é o queimar das horas vagas,
semelhante a cobertor de sofá
(ou a chinelo de quarto).

A mulherzinha
Não usa batom vermelho
(nem tão pouco unha pintada),
nem vai ao cabeleireiro
disfarçar anos medidos com fios brancos de cortar.

A mulherzinha
não tem roupa de marca,
mas tem marcas na roupa e na pele,
do desgaste das horas
e do passar... a ferro e fogo!



sábado, 7 de abril de 2018

Cumulonimbus

Num fim de tarde,
ou início de noite,
ante os sons que colapsavam mais um dia,
pairava uma nuvem densa,
pelo peso das horas enegrecida.

Pairava e permanecia,
numa inércia aflitiva,
tal era a sua presença,
que tudo em redor como que desapareceria.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Elogio fúnebre a um gato


Gato negro,
gatos pardos,
fúria fora, ergo
mal parados.

A noite caiu.
Ali permaneceu imóvel,
intocável e ressoante.
Perdida, contemplada por
aqueles que apressados passam.

Voluptuosamente esgueira-se
arrasta-se num todo,
o céu,
deixando-o coberto pelo negro.

Breu infinito e reluzente,
conquistador e transparente.
Mal,
vívido,
com um pequeno toque de atonalidade.

Gato negro,
gatos pardos,
fúria fora, ergo
mal parados.

Uma dissonância surge,
revela-se de rompante,
Sorri de repente
A fera... Ruge
A vida urge?

As flores tão lindas
nos parapeitos das luzernas.
O verdume do ribeiro,
que faz esquina
com várias tavernas.

É de certo a algazarra tomada
por tão efémera geada.
Por manto fino e doce
de elevada tese.

Gato negro,
gatos pardos,
fúria fora, ergo
mal parados.

Escuro,
observa erguido
a mal feitoria dos bem feitores,
a intimidade de cantores.

Por ali se estendeu.


Assim decidiu permanecer,
esquecer-se de viver
e num ápice

morreu.


sábado, 19 de julho de 2014

Espasmo hipnico


Hoje senti uma dor,
latejava por dentro...
E a lembraça de uma recordação aflorou os sentidos,
entorpecendo as acções.

Era como quem revê,
como quem quase esquece,
como se ao adormecer um abismo de fronte se deparasse
e um súbito estremecer nos separasse da queda.

Ardia,
queimava
e fulminava...

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Nada!

Buscar na inexistência
a calma que reconforta
o interior e a alma temida e julgada morta.

O nascer de um sentimento.
O crescer de sensações que transbordam persistentes,
curiosamente eloquentes.

É por dentro!
Sem dúvida que é por dentro que o ser se rói e se curva
obediente, impotente, mas tão duramente presente.
Apesar de tido como submisso,
apesar de não reclamar um lugar,
ali está! Firme, hirto,
qual cadáver enregelado!

São ondas quentes,
são chamas geladas,
ideias transparentes
em ventres cerebrais criadas.

Em cada dedo,
o carvão suave que se submete à escrita
e se arrasta, se desgasta numa cinzenta pasta
de linhas, folhas e gotas de pensamento.

A beleza é efémera!
O agrado não subsiste,
após a satisfação triste
do desejo já ausente.
Ah!… Quimera!

Acabou a consciência racional.
Cessou a dura luta na jornada vital.
Romperam os rios humanos de lava sanguínea
canalizando-se para uma só prioridade: Fluir!…

O fim e o início encontram-se.
Beijam-se fugazmente, sofregamente, de repente.
E depois que a história sucumbiu,
e antes que o tempo surja,
o ponto de perfeição ansiado:
- O escuro…
- O silêncio…
- O Nada!




25-08-04

VI

As palavras têm vícios. Encadeiam-se, emparelham-se, atraem-se, circunscrevem-se entre margens e ganham a estaticidade do hábito. Na verdade, são semelhantes às pessoas nas suas rotinas, embora um travo de tinta permanente não se compare à companhia de uma boa dose de outros líquidos dotados de propriedades mais efémeras.
Por vezes emaranham-se, rebolam-se num contorcer de pernas (ou penas) partidas, misturam-se e quase perdem a sua identidade, por girarem e gerarem novos contextos, ou sem textos, dependendo da prosódia ou da rima.
Também as há espartilhadas, apertadas, sufocadas entre vírgulas que se assemelham às quatro paredes de uma prisão, mas o discurso transcorre, correndo, e escorre como fluidos circulantes aprisionados num percurso infinito de tédio e vida.
No fundo, as palavras são baratas, não no seu sentido entomológico (embora esta constatação dependa da tinta que as compõe), que se lhes assemelham mais em significância do que em forma ou estilo. Circulam em palcos brancos, descrevendo retas que se unem em círculos, em espirais, quais borrões em catadupa e velocidade estonteante, resumindo-se à ausência de esforço ou a uma valente pisadela no alto do seu exosqueleto.
Podemos presumir, finalmente, que não têm vida, pois trazem somente prenúncios e silêncios, qual boca derradeira.
"A solidão abraça e abarca a todos..."
Presumir assim como presumimos e resumimos outras e mais verdades inválidas, tanto na sua formulação, como no seu âmago encadeia-nos num discurso tautológico: o amor está do coração. Pois, de facto, não só não se acumula nas coronárias contracurvas, nos meandros do miocárdio e pericárdio, no colesterol das arteriais autoestradas, como de veras não está, nem tão pouco vem nem vai de e para lado nenhum, simplesmente evapora-se.
Noutras circunstâncias, não menos frequentes, revestem-se (as palavras)  de movimento, de temperamento, de imprevisibilidade (acham elas) e falam de outros mundos, de sonhos e irrealidades, de projeções e esperanças (cegas pela opacidade das folhas que habitam). Nesses momentos, contorcem-se e exasperam conscientes da sua previsibilidade, que nunca lhes trará a visibilidade do acaso, da inconsequência, da eventualidade.
É... as palavras têm vícios e eu também.

terça-feira, 11 de março de 2014

A poesia


A poesia surge quando se faz silêncio
e uma luz ténue ilumina os contornos do que é importante,
no meio da penumbra...

À luz da vela



Deixa-me olhar-te enquanto dormes.
Por um instante ainda aqui estou
E a vela arde a sua derradeira luz,
Envolvendo-nos numa luz crepuscular.

O mar ecoa, distante,
Fazendo-se ouvir na quietude da noite
E a tua brisa, um sopro,
Ondula uma madeixa do meu cabelo.

Do teu olhar não há rasto,
Sob a beleza das tuas pestanas,
Vais na maré, já alta,
E eu estou em terra,
sinto grãos de areia
Que me toldam a visão.

A viagem está marcada,
A partida não tarda em chegar,
Então a luz apaga-se...
Não vês, não vejo,
Mas sei-nos aqui ancorados,
Enquanto os nossos sonhos andam à deriva,
Por uma noite ou uma eternidade.

Boa noite, meu amor,
Até amanhã...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pausa

Movimento, agitação,
perplexidade, reacção,
Incremento, modelagem,
revolta, criação!

Os dedos cospem
o íntimo rejeita,
moem, distorcem,
e da purga, a obra é feita.

A voz que não era ouvida,
fala sem dizer
e do discurso desordenado
a ordem brota sem o perceber.

Tinta, gralha,
breu e fél,
das entranhas esconjuradas
arde a doçura do mel.

E no silêncio que anunciava o fim,
já não se finda o que era calado,
pausa, delonga, ou nada,
o recomeço! (atrasado?)


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Alma

Sabes de que cor é a minha alma?
Eu digo que é cinzenta
Que é bassa,
Que é áspera,
Que fere,
Que se mantém firme, a medo,
Que é fel!

Podia, ao menos, esquivar-se
Deixar-se imobilizar,
Consumir-se,
Extinguir-se,
Sumir-se e deixar-se ficar,
Sabe-se lá onde
Em que paragens,
Em que paisagens,
Em que tédio envolvente,
Dominante,
Constante...

Se se mantivesse ao menos
distante,
Perdida,
Fugida...
Se não voltasse,
Não regressasse nunca mais,
Deixando somente um rasto
Que com o tempo de esbaterá...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O que é preciso fazer?

"- O que é que é preciso fazer? disse o principezinho.

- É necessário ser paciente, respondeu a raposa. Sentas-te primeiro um pouco longe de mim, assim, na erva. Eu olhar-te-ei pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Era preferível teres voltado à mesma hora, disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro da tarde, a partir das três começarei a sentir-me feliz. Quanto mais a hora avançar, mais me sentirei feliz. Chegadas as quatro horas já estaria agitada e inquieta; descobriria o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei-de vestir o meu coração... [...]

Foi assim que o principezinho cativou a raposa."
in O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry




Por favor... cativa-me!

"Foi então que apareceu a raposa.
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu delicadamente o principezinho, que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui, disse a voz, sob a macieira.
- Quem és tu? perguntou o principezinho. És bem linda...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, disse o principezinho. Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Mas, depois de ter reflectido, acrescentou:
- O que quer dizer 'cativar'? [...]
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa 'criar laços...'.
- Criar laços?
- Isso mesmo, disse a raposa. Para mim não passas ainda de um rapazinho muito parecido com cem mil rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti sou apenas uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, teremos necessidade um do outro. Para mim serás único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...[...] A minha vida é monótona. [...] Mas se me cativares a minha vida ficará como que iluminada pelo sol. Conhecerei um ruído de passos que será diferente de todos os outros. Os outros passos fazem-me meter debaixo da terra. Os teus, chamar-me-ão para fora da toca como uma música.
A raposa calou-se e olhou muito tempo o principezinho.
- Por favor... cativa-me! disse ela."

in O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Folhas brancas

Folhas brancas,
folhas virgens,
que risco com o meu pensar,
como é a dor que sentis
com este meu dilacerar?

O pensamento é sublime,
a escrita é banal
e eu na minha humana arrogância
subjugo o etéreo ao material.

E eu faço e acontecem,
submetidos à minha força carnal,
ragos de vontades,
mentiras, verdades,
verbos, adjectivos,
desejos, imperativos
que te percorrem
e transcorrem sem parar.

Depois do acto consumado
pouco, ou nada, resta por tocar
e quem te olha, já não te vê.
Só resta a mácula,
o branco sujo pela mão
e o poema ainda quente
que te esventrou sem perdão.

A noite diz...

Pergunto à noite imóvel
que murmúrios calou em si,
mas é em surdina feita a sua resposta,
com o maior silêncio que conheci.

E quanto mais pergunto, mais se cerra,
ferida, por eu o cortar,
cada tentativa é uma investida,
calo-me, arrependida por falar.

Estranha é a nocturna linguagem.
Na escuridão, com imponência,
sem quês, nem porquês,
tudo se vislumbra como numa miragem
e o nada aproxima-se de vez.

Agora temo a noite,
ensurdeceu-me porque o quis
e eu grito, mas já não me oiço:
"A noite diz..."

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ainda é Verão

Tantas vezes partimos
que algo se parte a cada adeus.

Nos teus olhos
antecipo a distância dos meus.
Nesse espelho
vejo que não goteja
porque ainda é Verão
e não antecipo o Inverno
que gelará o lago primaveril.

Não partas no Inverno,
meu amor!
Sem o calor dos teus braços
os nossos corações tornar-se-ão estátuas
e as estátuas não são como nós,
são frágeis,
frias,
imóveis
e partem-se a cada partida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Que distância vai da volúpia ao amor?
A de um fugaz rastilho
que ardendo se consome,
ou a de uma curta mecha
que lentamente se extingue?